A indigência intelectual dos jornalistas de O Globo


A zoeira com a história do Carlos Magno e seus cavaleiros da távola redonda foi ótima, e é mesmo um prazer incomensurável tripudiar de uma figura arrogante, presunçosa, pedante, que pisa nos tomates de maneira tão espetacular. Mas minha preocupação, aqui, é o jornalismo. A degradação do jornalismo, de que essa entrevista é um destacado e lamentável exemplo.

Foram seis jornalistas a entrevistar o sujeito que conspirou para usurpar a presidência do jeito que todos sabemos. Naturalmente ninguém esperaria nada além de um belo serviço de assessoria - diria melhor, de relações públicas -, considerando que o jornal em que trabalham foi peça fundamental dessa conspiração. Mas, sobretudo para esse tipo de tarefa, manter as aparências é essencial. Cuidar da imagem, certo? E o resultado foi justamente o oposto.

No texto que destaca a referência a Carlos Magno, já há uma derrapada ali pelo meio, quando os jornalistas levantam a bola para uma gracinha sobre o uso das famosas mesóclises e recebem uma resposta supostamente espirituosa: "tentá-lo-ei não fazê-lo". Como lembrou o Cid Benjamin, o correto, para sustentar a brincadeira, seria dizer, simplesmente, "tentá-lo-ei". Não deixa de ser interessante que, logo depois, Sua Majestade diga, afetando modéstia, que fala "um português razoavelmente adequado".

Mas o arremate com a referência a Carlos Magno - à parte o que, por si, já revela de presunção delirante - é realmente algo espantoso. Porque o erro é óbvio, evidente, elementar. Não é possível que seis (SEIS) jornalistas, entre os quais uma editora executiva, um colunista político e o editor de política, não tivessem dado por isso. Que não tenham tido coragem para adverti-lo na hora, vá lá. Mas bastaria retirar a referência e pronto, ninguém ficaria sabendo do deslize. Seria preciso arrumar outro título, mas pelo menos evitar-se-ia (epa!) o mico.

Impossível ignorarem a repercussão que essa história teria. E que eles próprios seriam motivo de escárnio, por publicarem uma patacoada desse nível.

Como era previsível, choveram comentários sobre o comportamento dessa imprensa diante das derrapadas de Lula, o "analfabeto", o "ignorante", o "tosco", ridicularizado até quando não havia motivo para isso (quem não se recorda da maneira como Elio Gaspari gozou a história da mãe que "nasceu analfabeta", quando Lula disse que ela nasceu E MORREU analfabeta?). Dilma foi outro saco de pancadas, com sua notória dificuldade de se expressar, as besteiras sobre as mulheres sapiens, a saudação à mandioca, a estocagem de vento.

Lula e Dilma foram sacaneados e tinham mesmo de ser, porque, como diria o folclórico Vicente Matheus, quem tá na chuva é pra se queimar.

Porém, se fossem jornalistas, os entrevistadores de Temer também teriam sido implacáveis com seus tropeços, ainda mais diante de alguém tão empenhado em posar de erudito.

Como todo texto permite várias leituras, a entrevista acabou revelando um sujeito arrogante, presunçoso, pedante e, ao mesmo tempo, ignorante. Numa palavra: oco.

Como propaganda, portanto, foi um desastre.

Mas as críticas também foram impiedosas com os jornalistas. Não só pela sabujice, que essa, infelizmente, é recorrente nesse tipo de imprensa. Mas por passarem recibo coletivo de ignorantes, tanto quanto seu ilustre personagem.

Pode ser que não se importem com isso. Mas é algo que fica marcado. É pra morrer de vergonha.

(Em tempo: pelo sim, pelo não, tomei a prudente providência de dar print na entrevista)

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